
A nova política de elegibilidade do Comitê Olímpico Internacional (COI) para os Jogos Olímpicos acendeu um debate global sobre inclusão e justiça desportiva. A entidade anunciou que a participação na categoria feminina será restrita a atletas biologicamente do sexo feminino, determinadas por uma triagem do gene SRY.
A medida altera drasticamente o cenário para as próximas competições, incluindo os Jogos de Los Angeles 2028, e gera reações de defensores dos direitos humanos.
“Práticas Excludentes”
Para a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a decisão é um movimento político travestido de ciência. Em nota oficial, a associação afirmou que o COI “escancara um movimento que não tem relação com justiça esportiva, mas sim com a retomada de práticas excludentes”.
Entre os principais pontos de crítica estão:
- Reativação de testes de gênero: A volta de exames cromossômicos, abandonados há décadas por serem considerados invasivos e pouco éticos.
- Reforço de estigmas: A associação argumenta que a decisão ignora evidências científicas robustas em favor de pressões morais.
- Impacto em atletas intersexo: A triagem do gene SRY também deve afetar competidoras com variações de características sexuais (DSD).
O Argumento do COI
A presidente do COI, Kirsty Coventry, defendeu a medida alegando a proteção da categoria feminina e a segurança das atletas. “Como ex-atleta, acredito veementemente no direito a competições justas. Não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina”, afirmou.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump reforçou sua ordem executiva “Keeping Men Out of Women’s Sports”, assinada em 2025, que proíbe atletas trans em competições femininas de diversos níveis.
O que diz a ciência?
Apesar da justificativa do COI baseada na “biologia”, a maior revisão sistemática já realizada sobre o tema apresenta dados divergentes. Publicado no British Journal of Sports Medicine, o estudo analisou 52 pesquisas com quase 6.500 participantes.
Principais descobertas do estudo:
- Igualdade de força: Após 1 a 3 anos de terapia hormonal, os níveis de força de mulheres trans se igualam aos de mulheres cisgênero.
- Composição Corporal: Os níveis de gordura corporal são comparáveis entre os dois grupos.
- Capacidade Aeróbica: Não foram observadas diferenças significativas na absorção máxima de oxigênio.
“Se houvesse grandes vantagens físicas intrínsecas, nós esperaríamos observá-las até em populações não-atléticas, o que não foi o caso”, afirma Bruno Gualano, professor da USP e coautor da análise.
Histórico de Controvérsias
O debate não é novo. Nos Jogos de Paris 2024, as boxeadoras Imane Khelif e Liu Yu-ting enfrentaram ataques coordenados sobre sua elegibilidade, apesar de serem mulheres cisgênero com variações hormonais. Antes delas, Laurel Hubbard (Tóquio 2020) foi a primeira mulher trans a competir, seguindo os critérios de testosterona vigentes na época.
Com a nova diretriz, mulheres trans e atletas com gene SRY positivo serão redirecionadas para a categoria masculina ou categorias abertas, uma decisão que, segundo mais de 80 grupos de direitos humanos, representa um golpe na igualdade de gênero no esporte.