Jovens LGBTQIA+ têm risco 2,3 vezes maior de usar drogas; estudo alerta para saúde mental

Pesquisas brasileiras e internacionais apontam que o "estresse de minorias", causado por preconceito e rejeição, antecipa o contato com substâncias e agrava quadros de ansiedade.

Jovens LGBTQIA+ têm o dobro de risco de usar drogas. (Foto: Reprodução)
Jovens LGBTQIA+ têm o dobro de risco de usar drogas. (Foto: Reprodução)

O cenário da saúde mental entre jovens LGBTQIA+ no Brasil acaba de ganhar dados alarmantes que reforçam a necessidade de políticas públicas inclusivas. Um estudo inédito de pesquisadores brasileiros, publicado na revista científica International Review of Psychiatry, revelou que essa população possui um risco até 2,3 vezes maior de consumir drogas em comparação a jovens heterossexuais e cisgêneros, além de iniciar o uso de forma mais precoce.

De acordo com o psiquiatra Caio Petrus Figueiredo, do IPq-USP e autor do trabalho, a vulnerabilidade está ligada ao estigma. “O momento de ‘se assumir’ costuma ser muito difícil, especialmente para o adolescente”, explica.

A “Penalidade Bissexual” e o Início Precoce

Os dados mostram um recorte de gênero ainda mais sensível. Entre mulheres bissexuais, os índices de consumo são significativamente mais altos: 56% fazem uso de maconha e 9,2% de cocaína.

Tauana Mendonça, pesquisadora da UFRGS, utiliza o termo “penalidade bissexual” (ou bifobia) para explicar o isolamento desse grupo, que muitas vezes enfrenta rejeição tanto da sociedade geral quanto da própria comunidade LGBTQIA+.

Impacto na Saúde Mental: Ansiedade e Depressão

O uso de substâncias é frequentemente uma “válvula de escape” para o sofrimento psíquico. Outras pesquisas mencionadas no levantamento apontam disparidades graves:

CondiçãoRisco em Jovens LGBTQIA+
Transtorno de Ansiedade3,37 vezes maior
Depressão2,17 vezes maior
Estresse Pós-Traumático4,2 vezes maior

Um levantamento do Instituto Cactus e AtlasIntel confirmou essa tendência: o índice de bem-estar psíquico de homossexuais (547) e bissexuais (531) é mais de 100 pontos inferior ao de heterossexuais (681).

O Papel do “Estresse de Minorias”

Especialistas concordam que o problema não é a orientação sexual ou identidade de gênero em si, mas o contexto social. O estresse de minorias — estressores crônicos como bullying, medo de violência e falta de representatividade — empurra o jovem para situações de risco.

“É um sofrimento psíquico mais forte que leva ao uso maior de drogas. Precisamos ter um olhar mais atento e oferecer um cuidado melhor em setores como a atenção primária e o senso comunitário”, afirma Arthur Guerra, coordenador do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio Libanês.

Caminhos para a Prevenção

Para reverter este quadro, a literatura científica aponta fatores que protegem a juventude e reduzem as chances de abuso de substâncias:

A integração desses temas em programas escolares e intervenções digitais é vista por especialistas como o passo fundamental para transformar o ambiente de exclusão em um espaço de acolhimento e proteção.

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