
O sucesso da terapia antirretroviral transformou o diagnóstico de HIV de uma sentença de morte em uma condição crônica controlável. No entanto, essa vitória da medicina moderna trouxe à tona um desafio inédito para os sistemas de saúde globais: uma população inteira envelhecendo com o vírus e apresentando corpos que desgastam mais rápido do que a idade cronológica indica.
Segundo dados de um relatório comissionado pela renomada revista médica The Lancet HIV — elaborado por mais de 30 cientistas de instituições como Yale, Johns Hopkins, Fiocruz e Organização Mundial da Saúde (OMS) —, até 2040, cerca de 20,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais estarão vivendo com HIV. Esse grupo representará 51% de do total de infectados no mundo, um salto expressivo em relação aos 29% registrados em 2025. A grande maioria (96%) estará concentrada em países de baixa e média renda, como o Brasil.
Idade cronológica versus idade fisiológica
Uma das descobertas mais marcantes do estudo revela a disparidade entre a idade do RG e a saúde real do organismo. Fisiologicamente, aos 65 anos, um homem com HIV possui expectativa de sobrevida equivalente à de uma pessoa sem o vírus 13,5 anos mais velha; entre as mulheres, essa diferença é de 11,6 anos.
A avaliação por “relógios epigenéticos”, que medem o desgaste do DNA, também confirma esse impacto, apontando um envelhecimento biológico adiantado entre 3,6 e 5,2 anos.
Como consequência desse avanço precoce, o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, renais, hepáticas e certos tipos de câncer surge muito mais cedo nessa população. Para as autoras principais do estudo, Amy Justice e Keri Althoff, a idade fisiológica deve passar a guiar a conduta médica no lugar da idade cronológica, exigindo uma abordagem geriátrica ampla para pacientes com estimativa de sobrevida menor que dez anos.
| Indicador de Saúde | Impacto no Envelhecimento com HIV |
|---|---|
| Diferença de Sobrevida (Homens aos 65 anos) | Fisiologicamente equivalentes a pessoas 13,5 anos mais velhas. |
| Diferença de Sobrevida (Mulheres aos 65 anos) | Fisiologicamente equivalentes a pessoas 11,6 anos mais velhas. |
| Relógio Epigenético (DNA) | Avanço de 3,6 a 5,2 anos na idade biológica real. |
| Uso de Polifarmácia | 89% dos idosos com HIV usam 5 ou mais remédios simultaneamente. |
Histórico de tratamento e os efeitos colaterais de longo prazo
A maior parte dos idosos que vivem com HIV atualmente contraiu o vírus nas décadas de 1990 e 2000. Naquela época, as diretrizes de saúde recomendavam aguardar a queda drástica dos glóbulos brancos (células CD4) para iniciar o tratamento, permitindo que a replicação viral causasse estragos inflamatórios por longos períodos.
Além da proliferação viral prolongada, as primeiras gerações de medicamentos antirretrovirais possuíam alta toxicidade. De acordo com o médico Draurio Barreto, coordenador do programa de HIV/Aids do Ministério da Saúde, o uso contínuo desses esquemas antigos por três ou quatro décadas resultou em sequelas graves, como osteoporose, fragilidade óssea e insuficiência renal.
Para mitigar esses danos, o Ministério da Saúde expandiu nos últimos dois anos o acesso a medicamentos mais modernos. Atualmente, cerca de 500 mil brasileiros com carga viral indetectável já migraram para a medicação combinada de duas drogas em comprimido único.
Síndromes geriátricas, estigma duplo e saúde sexual
Na rotina do atendimento comunitário, as marcas do envelhecimento precoce ultrapassam as questões físicas. Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova — ONG paulistana focada no acolhimento de pessoas vivendo com HIV —, relata que cerca de 70% dos atendidos têm mais de 50 anos, sendo a maioria formada por mulheres idosas.
Entre as principais queixas surgem as chamadas “síndromes geriátricas”, como a perda cognitiva e falhas de memória rápida, além do isolamento provocado pelo medo do preconceito. Essa combinação cria o chamado “estigma composto”: a sobreposição da discriminação etária com o preconceito relativo ao HIV.
O levantamento do The Lancet HIV destaca ainda lacunas no acompanhamento da saúde e prevenção:
- Saúde sexual na terceira idade: Embora 73% das pessoas entre 57 e 64 anos relatem vida sexual ativa, menos da metade aborda o assunto com profissionais de saúde.
- Diagnóstico tardio: A limitação da triagem de rotina de HIV até os 64 anos na maioria dos protocolos globais faz com que diagnósticos em idosos ocorram tardiamente.
- Polifarmácia e interações: Com 89% dos idosos com HIV fazendo uso de cinco ou mais medicamentos diários, os especialistas alertam para a necessidade de monitorar interações medicamentosas e combater o ganho excessivo de peso.
- Grupos invisibilizados: É urgente ampliar os estudos e cuidados direcionados a mulheres idosas (que hoje respondem pela maioria dos novos diagnósticos fora da idade reprodutiva no Brasil), pessoas trans, migrantes e egressos do sistema prisional.
Diante desse cenário, pesquisadores defendem a necessidade de “diagonalizar” os cuidados de saúde. Isso significa integrar o acompanhamento focado na supressão do vírus a uma rede completa de atenção geriátrica e preventiva, garantindo vida longa, funcional e livre de discriminação a quem envelhece com o HIV.