
Um estudo brasileiro publicado nesta quinta-feira (24) na revista científica The Lancet HIV mostrou que a PrEP injetável de longa duração com cabotegravir alcançou uma cobertura preventiva de 90,8% dos dias de acompanhamento entre os participantes que escolheram essa modalidade.
Na comparação, a cobertura registrada entre pessoas que utilizaram a PrEP oral disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foi de 35,5%. Os dados fazem parte do estudo ImPrEP CAB Brasil, conduzido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).
A pesquisa avaliou a implementação do cabotegravir em condições próximas da rotina dos serviços públicos de saúde brasileiros, e não apenas em um ambiente controlado de ensaio clínico.
Estudo acompanhou participantes em seis cidades brasileiras
O trabalho analisou 3.096 participantes. Desse total, 1.201 fizeram parte do grupo que escolheu a PrEP injetável com cabotegravir, 246 escolheram a PrEP oral e 1.649 integraram a coorte de comparação formada por usuários da PrEP oral oferecida pelo SUS.
Os participantes tinham entre 18 e 30 anos e incluíam homens gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias e pessoas trans.
O recrutamento ocorreu entre outubro de 2023 e setembro de 2024, com acompanhamento até outubro de 2025, em Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Florianópolis, Manaus e Salvador. A mediana de idade dos participantes foi de 26 anos.
Menor incidência de HIV entre usuários da PrEP injetável
Durante o acompanhamento, foram registradas três novas infecções pelo HIV entre os participantes que utilizaram o cabotegravir. A incidência foi de 0,20 caso por 100 pessoas-ano.
Na coorte que utilizou a PrEP oral disponibilizada pelo SUS, foram identificadas 18 novas infecções, com incidência de 1,48 caso por 100 pessoas-ano.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo foi desenhado para avaliar tanto a efetividade da tecnologia quanto sua implementação nos serviços de saúde, no chamado estudo híbrido de implementação-efetividade do tipo 2.
92% das aplicações foram feitas dentro do prazo
Outro dado destacado pela pesquisa foi a adesão às aplicações. 92% das injeções de cabotegravir foram administradas dentro do período previsto pelo estudo.
O medicamento é aplicado por via intramuscular e, após as doses iniciais, passa a ser administrado a cada dois meses.
Essa característica diferencia a PrEP injetável da modalidade oral, que exige o uso regular de comprimidos para manter a proteção.
Entre os efeitos adversos observados, as reações no local da aplicação foram as mais frequentes. Segundo o estudo, elas foram, em geral, de intensidade leve a moderada.
O que é a PrEP?
A profilaxia pré-exposição (PrEP) é uma estratégia de prevenção destinada a pessoas que não vivem com HIV e podem estar expostas ao vírus.
A modalidade oral já é oferecida gratuitamente pelo SUS. O cabotegravir de longa duração representa uma alternativa que reduz a frequência das tomadas de medicamentos, com aplicações periódicas.
A tecnologia já possui registro sanitário no Brasil e vem sendo avaliada para possível incorporação à rede pública.
Cabotegravir está em avaliação para o SUS
O Ministério da Saúde encaminhou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) uma proposta para avaliar a incorporação do cabotegravir como PrEP.
A Conitec abriu a Consulta Pública nº 76/2026, especificamente para avaliar o cabotegravir destinado à profilaxia pré-exposição à infecção pelo HIV-1. A consulta ficou aberta de 10 a 31 de agosto de 2026.
A Comissão avalia evidências científicas, aspectos econômicos e o impacto da eventual incorporação antes de emitir uma recomendação ao Ministério da Saúde.
Em julho, o Ministério da Saúde já havia informado que a proposta de PrEP injetável de longa duração estava em avaliação para ampliar as opções de prevenção do HIV no SUS.
Os resultados do ImPrEP CAB Brasil podem contribuir para essa análise porque mostram como a tecnologia se comporta na prática dos serviços públicos brasileiros, incluindo adesão às aplicações e cobertura da prevenção.
PrEP oral continua disponível gratuitamente
A possível incorporação do cabotegravir não significa o fim da PrEP oral. A modalidade em comprimidos continua sendo oferecida gratuitamente pelo SUS.
A escolha da estratégia de prevenção deve considerar as características, necessidades e possibilidades de acompanhamento de cada pessoa.
É importante lembrar que a PrEP protege contra o HIV, mas não previne outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Por isso, a prevenção combinada continua incluindo medidas como preservativos, testagem periódica para HIV e outras ISTs e acompanhamento adequado nos serviços de saúde.
O estudo brasileiro reforça a importância de ampliar as alternativas de prevenção disponíveis para diferentes públicos. Segundo os pesquisadores, os dados apoiam a possibilidade de incorporar opções de PrEP de longa duração à rotina do sistema público brasileiro.





