
O que deveria ser a celebração de uma história de amor transformou-se em um episódio de violência digital e homofobia. Um casal que protagonizou um pedido de casamento em Teresina registrou um Boletim de Ocorrência após ser vítima de uma onda de ataques e discursos de ódio nas redes sociais.
O pedido ocorreu na terça-feira (13), durante uma manifestação pública em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Surpreso, o noivo aceitou o pedido, e a gravação do momento foi postada na rede social X (antigo Twitter). A publicação rapidamente viralizou, mas a repercussão tomou contornos criminosos quando páginas de grande alcance passaram a replicar o vídeo.
Exposição de dados e assédio online
Com a viralização, internautas passaram a direcionar ofensas ao casal e a praticar doxing — termo utilizado para a exposição não autorizada de dados pessoais na internet. Informações confidenciais, como o endereço residencial dos jovens e os locais que costumam frequentar no dia a dia, foram divulgadas publicamente nas redes.
Em entrevista ao portal G1, um dos noivos, que optou por não se identificar por razões de segurança, relatou o susto ao perceber o tom das mensagens.
“Ele não sabia que eu faria o pedido ali. Organizei tudo, gravei e publiquei. Quando acordei, já tinha viralizado. Com o passar das horas, começaram a surgir comentários de ódio. Depois, passaram a nos identificar, informando onde moramos e até onde estávamos após a manifestação”, relatou o jovem.
Diante do volume de mensagens hostis e temendo pela segurança de amigos e familiares, o casal tomou a decisão de fechar e fechar as redes sociais. Eles também solicitaram a remoção dos vídeos e das informações aos perfis que republicaram o conteúdo, mas, até o momento, os posts continuam no ar.
Registro policial e investigação
Para conter a disseminação dos dados e responsabilizar os autores dos ataques, os noivos formalizaram a denúncia na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI). Além disso, foi registrado um Boletim de Ocorrência por homofobia, crime equiparado ao de racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo as vítimas, a maioria dos comentários recebidos utilizou termos pejorativos voltados diretamente à orientação sexual do casal.
Preconceito e o direito de amar em público
O jovem que organizou a surpresa lamentou que um gesto comum de afeto tenha gerado tanta comoção negativa e atribuiu o episódio ao preconceito estrutural enfrentado pela comunidade LGBTQIA+.
“Existem tantos pedidos de namoro e casamento feitos em público. Mas por que o nosso incomodou tanto e virou motivo de viralização e chacota, chegando a afetar até as pessoas à minha volta?”, questionou.
Apesar da violência sofrida, o casal reforçou que o pedido representou um ato de coragem e defesa da liberdade.
“Eu acredito no meu relacionamento e em um país que nos acolha e enxergue todos como iguais. Luto para que outras pessoas LGBT possam fazer seus pedidos em público e viver suas histórias sem precisar esconder quem são ou sofrer repressão”, concluiu o noivo.
A Polícia Civil do Piauí investiga o caso por meio da DRCI e da Delegacia de Defesa e Proteção dos Direitos Humanos e Repressão às Condutas Discriminatórias (DDH).