Eloína: A história da primeira rainha de bateria trans que a ditadura tentou apagar
Em 1976, Joãozinho Trinta revolucionou a Beija-Flor ao coroar uma divindade trans à frente dos ritmistas; conheça a trajetória de resistência de Eloína.

A história do Carnaval carioca é repleta de luxo e festa, mas também de profunda subversão política. Um dos episódios mais marcantes, e muitas vezes omitido dos livros oficiais, ocorreu em 1976: a ascensão de Eloína, a primeira mulher trans a ocupar o posto de rainha de bateria na Marquês de Sapucaí.
Em pleno auge da repressão militar e do AI-5, a Beija-Flor de Nilópolis não buscava apenas o seu primeiro título, mas uma verdadeira revolução estética e social sob o comando do mestre Joãozinho Trinta.
A estratégia subversiva de Joãozinho Trinta
Para enfrentar a “patrulha moral” da época, Joãozinho Trinta montou uma operação digna de cinema. Ele trouxe Eloína diretamente da França e a manteve escondida até o momento do desfile.
No dia da apresentação, Eloína chegou ao sambódromo de roupão e foi colocada estrategicamente à frente da bateria. A ordem do carnavalesco para os ritmistas da Baixada Fluminense era clara: proteger a soberana e não permitir que nenhuma outra pessoa se aproximasse dela. Mais do que uma passista fantasiada, Eloína cruzou a avenida coroada como uma divindade.
O magnetismo na avenida e o título inédito
O impacto de Eloína foi imediato. O magnetismo da rainha foi tamanho que o então prefeito do Rio de Janeiro chegou a declará-la como a mulher mais bonita da avenida. Naquela noite, a Beija-Flor conquistou o seu primeiro título de campeã do Carnaval carioca, marcando o início de uma era de glórias para a escola de Nilópolis.
O preconceito e a tentativa de apagamento
Apesar do sucesso estrondoso, a história de Eloína foi marcada pelo preconceito institucionalizado. Ela chegou a vencer o prestigiado Estandarte de Ouro na categoria de melhor passista. No entanto, ao descobrirem que ela era uma mulher trans (identificada na época como travesti), a organização do prêmio decidiu não entregar o troféu.
A estratégia de Joãozinho Trinta incluiu esconder a verdadeira identidade de Eloína até o resultado final da apuração para evitar retaliações que pudessem prejudicar a pontuação da escola.
Memória como ato de resistência

Embora a história oficial muitas vezes sofra de “amnésia” sobre o pioneirismo de Eloína, sua trajetória pavimentou o caminho para que outras mulheres trans ocupassem espaços de destaque no Carnaval contemporâneo. Eloína não foi apenas uma rainha; ela foi um símbolo de resistência em um dos períodos mais sombrios do Brasil.





