Sem bandeiras há dois anos, praias do Rio resistem ao apagamento de suas cores
Há quase 40 anos na areia, a histórica barraca da Fau enfrenta os impactos da padronização municipal que removeu símbolos da diversidade em 2024.

Muito antes de Copacabana se tornar o epicentro global do turismo diversificado, um pequeno ponto na areia já servia de escudo e abraço para a comunidade LGBTQIA+. O Espaço Fau, fundado em 1985 por Fátima Mello (a Fau), celebra quase quatro décadas como um dos primeiros territórios de resistência e acolhimento da orla carioca.
No entanto, em 2024, a identidade visual deste patrimônio afetivo e outros pontos sofreram um golpe: a padronização das barracas imposta pela Prefeitura do Rio de Janeiro resultou na retirada das bandeiras do arco-íris, que serviam como um “farol” de segurança para corpos dissidentes.
Um território de proteção contra a repressão
O que hoje é um espaço consolidado nasceu em um cenário de hostilidade. Nos anos 80 e 90, o Rio de Janeiro ainda convivia com forte repressão policial e violência contra pessoas trans, gays e lésbicas em espaços públicos.
A Barraca da Fau surgiu como um negócio familiar que, naturalmente, tornou-se um refúgio. Ali, a liberdade de ser quem se é não era apenas um conceito, mas uma prática diária defendida por Fau e sua companheira, Rose.
A história por trás das bandeiras
As famosas bandeiras da diversidade que coloriam o espaço não surgiram por acaso. Nos anos 90, para ajudar os frequentadores a localizar a barraca na multidão, Fau improvisou:
- Materiais: Cangueiros, cabos de guarda-sol e muita criatividade.
- Significado: O que era um sinalizador visual tornou-se um símbolo político de visibilidade LGBT.
“Eu me senti pelada. É como se tivessem me tirado uma roupa minha, me exposto. A barraca ficou sem graça, ficou sem sal”, desabafa Fau sobre a retirada dos símbolos pela gestão municipal.

O impacto da padronização municipal
Para a gestão pública, as novas regras visam o ordenamento urbano. Para o Espaço Fau, a medida representou um prejuízo material e simbólico. Sem os símbolos que identificavam o local como um território seguro, parte do público histórico deixou de frequentar o ponto, afetando o faturamento da barraca.
O jornalista e ativista Rafael Gomes define o local como um patrimônio da história LGBTQIA+ carioca. Para ele, a padronização tenta apagar décadas de histórias de enfrentamento à LGBTfobia e às abordagens arbitrárias da guarda municipal que Fau e Rose superaram ao longo dos anos.
Além do faturamento: Um olhar humano
Apesar das dificuldades e da “perda das cores” externas, Fau e Rose continuam firmes. Para a fundadora, o valor do espaço nunca foi meramente comercial, mas sim sobre a dignidade de quem o ocupa.
“Que eles sejam acolhidos de verdade, que sejam vistos não só como faturamento, mas como pessoas”, afirma Fau.
O Espaço Fau segue em Copacabana como um lembrete vivo: a cidade é construída por memórias e por pessoas que insistem em permanecer visíveis, mesmo quando as normas tentam padronizar a diversidade.





