Casal gay realiza sonho da paternidade com fertilização in vitro e barriga de aluguel

Cássio e Siomar, de Uberlândia, percorreram mais de três anos de processo para o nascimento dos filhos Bento e Antônio, cada um com a genética de um dos pais.

Cássio e Siomar com os filhos Antônio e Bento. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Cássio e Siomar com os filhos Antônio e Bento. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O encontro começou com um deslize de dedo em um aplicativo de namoro. Em 2018, o uberlandense Siomar Parreira tinha uma frase direta na bio do perfil: “quero ter filhos”. Foi exatamente isso que chamou a atenção de Cássio Freitas, que morava na Itália na época. A partir dali, o que nasceu como uma conversa virtual se transformou em casamento, família e, depois de três anos e quatro meses de um processo complexo, na chegada dos filhos Bento e Antônio.

Para realizar o sonho da paternidade com a própria genética, o casal optou pela fertilização in vitro (FIV) combinada com o uso de útero de substituição — popularmente chamado de barriga de aluguel — em uma clínica de Los Angeles, na Califórnia, a mesma utilizada pelo ator Paulo Gustavo e seu marido, o médico Thales Bretas.

Por que os EUA?

No Brasil, a técnica de reprodução assistida é permitida, mas o Conselho Federal de Medicina (CFM) impõe restrições importantes: o útero de substituição só pode ser cedido por uma mulher com vínculo familiar de até quarto grau com o casal e sem fins lucrativos. Há exceções, mas exigem autorização específica do CFM, o que torna o processo mais burocrático e limitado.

Diante dessas barreiras, Cássio e Siomar partiram para os Estados Unidos, onde as regras são mais flexíveis e o mercado de reprodução assistida é amplamente regulamentado.

Como funciona a fertilização in vitro para casais gay?

Barriga de aluguel foi escolhida por descrição familiar. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Segundo a ginecologista e obstetra Camila Toffoli, especialista em infertilidade e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na FIV aplicada a casais formados por dois homens, óvulos doados são fecundados em laboratório com o espermatozoide de cada um dos parceiros, formando embriões que são transferidos para o útero da gestante voluntária.

No caso de Cássio e Siomar, o objetivo era claro: ter dois meninos, cada um com o material genético de um dos pais. O processo envolveu:

A escolha da gestante de substituição

Encontrar a mulher certa para carregar os filhos também não foi simples. O casal conversou com várias candidatas antes de sentir a conexão certa — na oitava tentativa. “Ela era muito ligada à família, falava disso o tempo todo e tinha um sorriso constante”, recordaram.

Nascimento prematuro e alivio após o pior voo da vida

Bebês nasceram prematuros. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Os bebês nasceram prematuramente, entre seis e sete meses de gestação. Bento apresentou uma obstrução no canal umbilical, o que exigiu a antecipação do parto para aumentar as chances de sobrevivência. Ao receber a ligação com a notícia, Cássio e Siomar embarcaram imediatamente para os EUA.

“Foi o pior voo das nossas vidas”, descreveram. O parto, no entanto, foi bem-sucedido. Bento ficou 15 dias internado. Um mês depois, o casal retornou ao Brasil com os dois filhos — que têm dupla cidadania e documentação emitida com o nome dos dois pais.

Representatividade nas redes sociais

Ao longo da jornada, Cássio e Siomar sentiram a falta de referências. Com poucos relatos de pais gays que tivessem percorrido o mesmo caminho, decidiram criar um perfil no Instagram para contar a própria história e acolher outros casais que compartilham o mesmo sonho.

“Recebemos mensagens de casais do Brasil inteiro que se sentem representados e encorajados a também viver o sonho de formar uma família”, contaram.

O batizado dos filhos, realizado em uma igreja a convite de um padre, tornou-se um símbolo de abertura e transformação social. Para o casal, narrar a própria história é, antes de tudo, uma tentativa de mudar o mundo.

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