
O corpo como manifesto, a performance como desafio e a liberdade como norte. Ney Matogrosso, um dos nomes mais celebrados e disruptivos do cancioneiro nacional, completa 85 anos. Para marcar a data, o instituto cultural Solar, localizado no centro do Rio de Janeiro, inaugurou a exposição “Prefiro Ser”.
Longe de ser uma biografia literal, a mostra reúne vídeos, pinturas, fotografias e esculturas que funcionam como metáforas da personalidade camaleônica do artista. A curadoria é assinada por Bernardo Mosqueira, Matheus Morani e Pablo León de la Barra.
“Ney é um artista que bota o próprio corpo em risco, como se ele fosse um objeto de performance, encantamento e desafio”, destaca o curador Bernardo Mosqueira.
O Corpo Coberto de Suor e a Recusa a Rótulos

Logo na entrada do Solar, o público é recepcionado por uma escultura de Exu, concebida por Chico Tabibuia. A obra apresenta a divindade com seios e uma protuberância fálica, sintetizando a recusa de Ney em ser rotulado entre o masculino e o feminino.
A emblemática presença de palco do cantor também ganha contornos físicos na mostra:
- A Natureza Camaleônica: Uma grande pintura do coletivo Avaf retrata Ney misturando elementos de várias fases da carreira, como o chapéu do disco Bandido (1976) e os chifres de carneiro da capa de Água do Céu – Pássaro (1975).
- O Suor do Palco: A escultura “Orvalho”, de Samuel Alves de Jesus, utiliza sal, resina e calcita. Em contato com a umidade, a estrutura amarga faz surgir gotículas na superfície, simulando o corpo inquieto e transpirante de Ney em seus shows.
Ditadura Militar e a Estética da Marginalidade

Ney Matogrosso despontou nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad. Com rostos pintados e roupas insinuantes, o trio empilhou sucessos como “Sangue Latino” e “O Vira”, desafiando a moral da ditadura militar.
Essa postura disruptiva seguiu na carreira solo. O álbum Bandido (1976), representado na exposição por um cartaz, dialoga diretamente com a célebre bandeira-poema “Seja Herói, Seja Marginal”, criada por Hélio Oiticica em 1968.
De acordo com a curadoria, o magnetismo de Ney era tão poderoso que subvertia até os discursos repressores da época: “Os próprios conservadores ficavam encantados”, pontua Mosqueira.
Diálogos Históricos: O Corpo como Obra de Arte
A exposição “Prefiro Ser” traça paralelos entre a ousadia de Ney e outros momentos cruciais da história da arte brasileira que desafiaram normas sociais de gênero e comportamento:
| Artista | Obra / Performance | Contexto Histórico |
|---|---|---|
| Antonio Manuel (1970) | “O Corpo é a Obra” | Inscreveu o próprio corpo nu no Salão de Arte Moderna em plena repressão política. |
| Flávio de Carvalho (1956) | “New Look” | Caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e blusa bufante, afrontando os padrões masculinos. |
As próprias vestimentas de Ney — desde calças jeans justíssimas até quepes de couro e regatas metalizadas com estética sadomasoquista — são celebradas como ferramentas de questionamento de gênero e sexualidade.
Sem Temer a Vertigem: O Enfrentamento à Epidemia de HIV

A mostra também reserva um espaço de profunda sensibilidade para os anos 1980, período em que a comunidade LGBTQIA+ enfrentou o auge e o estigma da epidemia de HIV. O próprio Ney Matogrosso perdeu figuras centrais de sua vida para a doença, como o marido Marco de Maria e o ex-namorado, o cantor Cazuza.
Esse núcleo traz a força de artistas que traduziram as dores e temores da época:
- Obras afetivas de Leonilson e Feliciano Centurión.
- O impactante vídeo “Prelúdio de uma Morte Anunciada”, de Rafael França (pioneiro da videoarte no Brasil). O registro exibe o afeto do artista com seu namorado intercalado pelos nomes de amigos vitimados pela enfermidade.
O vídeo de França termina com a frase: “Above all, they had no fear of vertigo” (Acima de tudo, eles não temeram a vertigem). Uma definição que, para a curadoria, conecta perfeitamente a obra desses artistas à trajetória corajosa de Ney Matogrosso.





