
Com a força visual e poética que marca sua trajetória, Daniela Mercury manda um recado direto contra o preconceito: “Abra a porta desse armário que não tem censura para me segurar”. A declaração sintetiza o tom da entrevista concedida pela artista à DW (Deutsche Welle) em meio à sua mais recente turnê pela Europa, onde celebra um marco divisor de águas em sua vida pessoal e profissional.
Aos 61 anos de idade e com 40 anos de carreira, a cantora baiana prepara-se para receber o prêmio Lifetime Achievement no Grammy Latino, premiação concedida pelo conjunto da obra. O reconhecimento é histórico: Daniela torna-se a primeira artista do axé music a conquistar este tributo.
“É uma vitória fantástica. É a consagração da minha geração, de um outro tipo de música brasileira e do trabalho de internacionalizá-la”, celebrou a cantora.
Resistência LGBTQIA+ e diversidade global
Voz ativa na defesa das causas sociais, Daniela usou o espaço para alertar sobre o cenário político atual, marcado por tentativas de retrocesso social tanto no Brasil quanto no exterior.
A artista reforçou que a pluralidade é a maior riqueza de qualquer sociedade:
- Fim dos retrocessos: Defesa irrestrita das conquistas sociais e civis.
- Diversidade no centro: A pluralidade cultural e de identidades como motor de desenvolvimento humanitário.
- Presença internacional: Levar a pauta dos direitos humanos e LGBTQIA+ para os palcos do mundo.
“Este é um momento de discussão sobre direitos LGBTQIA+ e tentativas de retrocesso, aqui, em outros lugares da Europa e nos Estados Unidos. A diversidade nos enriquece tanto. Não há como retroceder em direitos”, pontuou.
O orgulho da cultura percussiva e baiana
Precursora da música percussiva e urbana que projetou Salvador internacionalmente na década de 1990, a artista relembrou suas origens na dança e a construção de uma estética musical profundamente politizada.
Sua trajetória reafirmou o valor da identidade do Nordeste e a contribuição fundamental da cultura negra para a construção da identidade nacional, misturando samba, ritmos percussivos e sotaque local.
“Pude trazer uma ideia mais completa dos sentimentos de uma mulher brasileira de Salvador. Foi maravilhoso ser precursora de um novo gênero, forte e politizado, que afirmou a importância do nosso povo preto”, afirmou.
Encanto internacional e mensagem de afeto
A resposta do público europeu nos shows confirma a força da cultura brasileira além das fronteiras. Daniela destacou o fascínio dos fãs alemães com o ritmo e a vibração das apresentações, independentemente da barreira do idioma.
Para o público brasileiro, a mensagem final da artista é de autoestima coletiva e coragem diante das adversidades:
“Eu gostaria que o povo brasileiro olhasse para si com mais orgulho. Nós somos uma potência cultural gigantesca, maravilhosos, queridos e respeitados no mundo. Eu peço gentileza, afeto e amor. Não tenham medo do mundo, não tenham medo das pessoas. Não tenham medo.”