Saúde

Relatório aponta que idade fisiológica de quem vive com HIV pode superar a real em até 13 anos

Comissão da Lancet mostra que população com HIV envelhece mais rápido que o resto do mundo.

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HIV faz o corpo envelhecer até 13 anos mais rápido. (Foto: Getty Images)
HIV faz o corpo envelhecer até 13 anos mais rápido. (Foto: Getty Images)

O sucesso da terapia antirretroviral transformou o diagnóstico de HIV de uma sentença de morte em uma condição crônica controlável. No entanto, essa vitória da medicina moderna trouxe à tona um desafio inédito para os sistemas de saúde globais: uma população inteira envelhecendo com o vírus e apresentando corpos que desgastam mais rápido do que a idade cronológica indica.

Segundo dados de um relatório comissionado pela renomada revista médica The Lancet HIV — elaborado por mais de 30 cientistas de instituições como Yale, Johns Hopkins, Fiocruz e Organização Mundial da Saúde (OMS) —, até 2040, cerca de 20,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais estarão vivendo com HIV. Esse grupo representará 51% de do total de infectados no mundo, um salto expressivo em relação aos 29% registrados em 2025. A grande maioria (96%) estará concentrada em países de baixa e média renda, como o Brasil.

Idade cronológica versus idade fisiológica

Uma das descobertas mais marcantes do estudo revela a disparidade entre a idade do RG e a saúde real do organismo. Fisiologicamente, aos 65 anos, um homem com HIV possui expectativa de sobrevida equivalente à de uma pessoa sem o vírus 13,5 anos mais velha; entre as mulheres, essa diferença é de 11,6 anos.

A avaliação por “relógios epigenéticos”, que medem o desgaste do DNA, também confirma esse impacto, apontando um envelhecimento biológico adiantado entre 3,6 e 5,2 anos.

Como consequência desse avanço precoce, o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, renais, hepáticas e certos tipos de câncer surge muito mais cedo nessa população. Para as autoras principais do estudo, Amy Justice e Keri Althoff, a idade fisiológica deve passar a guiar a conduta médica no lugar da idade cronológica, exigindo uma abordagem geriátrica ampla para pacientes com estimativa de sobrevida menor que dez anos.

Indicador de SaúdeImpacto no Envelhecimento com HIV
Diferença de Sobrevida (Homens aos 65 anos)Fisiologicamente equivalentes a pessoas 13,5 anos mais velhas.
Diferença de Sobrevida (Mulheres aos 65 anos)Fisiologicamente equivalentes a pessoas 11,6 anos mais velhas.
Relógio Epigenético (DNA)Avanço de 3,6 a 5,2 anos na idade biológica real.
Uso de Polifarmácia89% dos idosos com HIV usam 5 ou mais remédios simultaneamente.

Histórico de tratamento e os efeitos colaterais de longo prazo

A maior parte dos idosos que vivem com HIV atualmente contraiu o vírus nas décadas de 1990 e 2000. Naquela época, as diretrizes de saúde recomendavam aguardar a queda drástica dos glóbulos brancos (células CD4) para iniciar o tratamento, permitindo que a replicação viral causasse estragos inflamatórios por longos períodos.

Além da proliferação viral prolongada, as primeiras gerações de medicamentos antirretrovirais possuíam alta toxicidade. De acordo com o médico Draurio Barreto, coordenador do programa de HIV/Aids do Ministério da Saúde, o uso contínuo desses esquemas antigos por três ou quatro décadas resultou em sequelas graves, como osteoporose, fragilidade óssea e insuficiência renal.

Para mitigar esses danos, o Ministério da Saúde expandiu nos últimos dois anos o acesso a medicamentos mais modernos. Atualmente, cerca de 500 mil brasileiros com carga viral indetectável já migraram para a medicação combinada de duas drogas em comprimido único.

Síndromes geriátricas, estigma duplo e saúde sexual

Na rotina do atendimento comunitário, as marcas do envelhecimento precoce ultrapassam as questões físicas. Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova — ONG paulistana focada no acolhimento de pessoas vivendo com HIV —, relata que cerca de 70% dos atendidos têm mais de 50 anos, sendo a maioria formada por mulheres idosas.

Entre as principais queixas surgem as chamadas “síndromes geriátricas”, como a perda cognitiva e falhas de memória rápida, além do isolamento provocado pelo medo do preconceito. Essa combinação cria o chamado “estigma composto”: a sobreposição da discriminação etária com o preconceito relativo ao HIV.

O levantamento do The Lancet HIV destaca ainda lacunas no acompanhamento da saúde e prevenção:

  • Saúde sexual na terceira idade: Embora 73% das pessoas entre 57 e 64 anos relatem vida sexual ativa, menos da metade aborda o assunto com profissionais de saúde.
  • Diagnóstico tardio: A limitação da triagem de rotina de HIV até os 64 anos na maioria dos protocolos globais faz com que diagnósticos em idosos ocorram tardiamente.
  • Polifarmácia e interações: Com 89% dos idosos com HIV fazendo uso de cinco ou mais medicamentos diários, os especialistas alertam para a necessidade de monitorar interações medicamentosas e combater o ganho excessivo de peso.
  • Grupos invisibilizados: É urgente ampliar os estudos e cuidados direcionados a mulheres idosas (que hoje respondem pela maioria dos novos diagnósticos fora da idade reprodutiva no Brasil), pessoas trans, migrantes e egressos do sistema prisional.

Diante desse cenário, pesquisadores defendem a necessidade de “diagonalizar” os cuidados de saúde. Isso significa integrar o acompanhamento focado na supressão do vírus a uma rede completa de atenção geriátrica e preventiva, garantindo vida longa, funcional e livre de discriminação a quem envelhece com o HIV.

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