Paraná

Agricultor vira drag queen para projeto do filho e transforma relação familiar com arte e afeto

Série fotográfica “Querido Pai”, de Danilo Zocatelli, coloca um agricultor do interior do Paraná em cenas de drag e revisita a relação entre identidade LGBTQIA+, masculinidade, religiosidade e pertencimento.

Faça parte do canal do Gay1 no WhatsApp. Clique aqui!
O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)
O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)

Pedir ao próprio pai para se transformar em drag queen não estava nos planos de João Cesco Filho, agricultor de 64 anos que vive em Marialva, no interior do Paraná. Mas foi justamente esse convite inesperado que ajudou a aproximar pai e filho e deu origem a um dos trabalhos mais pessoais do artista brasileiro Danilo Zocatelli.

Morando na Inglaterra há cerca de 15 anos, Danilo criou a série fotográfica “Dear Father” (Querido Pai) como parte de seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art, em Londres. O projeto investiga a relação entre pai e filho a partir de uma inversão de papéis: o agricultor passa a performar uma identidade drag enquanto o filho assume o controle da maquiagem e da fotografia.

“Não é todo dia que você pede ao seu pai para pintar ele de drag queen”, contou Danilo em entrevista à Folha de S.Paulo.

“Me traga uma peruca bonita”

Para realizar o projeto, o artista precisou primeiro convencer o próprio pai. Danilo telefonou para João e explicou que precisaria conversar sobre assuntos que os dois nunca haviam abordado abertamente.

A proposta envolvia também transformar o pai em drag.

Depois de uma pausa de aproximadamente 30 segundos, veio a resposta:

“Desde que você me traga uma peruca bonita, e uma para sua mãe também, eu faço.”

Para Danilo, a reação mostrou que João já havia entrado na brincadeira antes mesmo de começar. “O pai já veio diva”, brinca o artista.

Um passado marcado pelo medo de não pertencer

O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)
O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)

Apesar do tom bem-humorado, o projeto nasceu de experiências profundas de Danilo durante a infância e adolescência.

Ele cresceu em uma família tradicional e extremamente católica no interior do Paraná. Durante a adolescência, chegou a dar catequese na igreja, enquanto uma prima permaneceu por 35 anos como freira.

Na adolescência, Danilo precisou decidir entre esconder sua identidade para atender às expectativas familiares ou assumir quem realmente era.

Escolheu a segunda opção.

Segundo o artista, esse momento representou uma “virada de chave”. Foi também nessa época que seu pai lhe disse pela primeira vez que o amava.

O significado de “golo”

Uma das palavras que aparecem na história familiar de Danilo é “golo”. Segundo o artista, o termo pertence a uma espécie de dialeto familiar associado aos antepassados italianos e era utilizado para se referir a homens considerados diferentes dos padrões tradicionais de masculinidade.

Cabelo comprido, tatuagens, piercings ou brincos poderiam ser suficientes para alguém ser chamado de “golo”.

A palavra, que anteriormente carregava uma dimensão de exclusão para Danilo, passou a fazer parte da reflexão artística desenvolvida em “Dear Father”. O projeto transforma experiências do passado em uma possibilidade de diálogo e aproximação.

Do campo para o universo drag

O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)
O projeto “Dear Father” (Querido Pai) foi desenvolvido por Danilo durante seu mestrado em Fotografia no Royal College of Art e retrata o pai, João Cesco Filho, um agricultor de 64 anos, caracterizado como drag queen em meio à rotina rural de Marialva, no Paraná. (Foto: Danilo Zocatelli)

Durante duas semanas, João foi fotografado em diferentes situações dentro da propriedade rural da família.

Com peruca de cabelos castanhos encaracolados e maquiagem marcada por sombras verdes e amarelas, delineador preto, blush e batom vermelho, o agricultor aparece em atividades cotidianas.

Ele foi fotografado sobre um trator, em meio às plantações, realizando tarefas da propriedade e até mesmo em uma capela rural.

Em algumas imagens, João aparece usando roupas que fazem parte de sua própria rotina, como camiseta polo e camisa do Palmeiras.

A proposta não era apagar a identidade do agricultor, mas justamente colocá-la em diálogo com a linguagem drag.

O próprio Royal College of Art descreve o trabalho como uma exploração da aceitação por meio da inversão de papéis entre pai e filho.

Uma capela, o pai e uma nova narrativa

Uma das fotografias mais simbólicas foi realizada dentro de uma capela rural. João aparece maquiado e de peruca diante da imagem de São João Batista, segurando uma vela.

Para Danilo, a cena representa uma inversão de sua própria infância.

Quando criança, era levado pelos pais à igreja. Agora, adulto, era ele quem conduzia o pai para dentro daquele espaço, mas apresentando uma nova narrativa sobre identidade, masculinidade e pertencimento.

“Agora eu que tô lá dentro com o meu pai em drag”, explicou o artista.

A maquiagem como inversão de autoridade

O processo de maquiar o pai também carregava um significado simbólico.

Ao dar instruções como “abra os olhos” e “feche a boca”, Danilo assumia temporariamente o controle da situação. A relação tradicional de autoridade entre pai e filho era invertida.

João, acostumado ao trabalho rural e à rotina do campo, passava a ocupar uma posição de vulnerabilidade diante do filho.

Para o Royal College of Art, essa inversão ajuda a criar uma nova forma de compreensão entre os dois.

“Foi um choque extremo”

João admite que descobrir que o filho era gay foi inicialmente difícil.

“Foi um choque extremo”, afirmou.

Com o passar do tempo, porém, diz ter escolhido acolher Danilo.

“Posso dizer que aceitei e estou feliz por você ser uma pessoa do jeito que você é, lutadora, trabalhadora, um bom filho, com a graça de Deus”, declarou.

Para o agricultor, a relação familiar deveria prevalecer sobre as diferenças.

“Você, como meu filho, eu não poderia te deixar de lado, era só acolher mesmo”, afirmou.

“Eu só quero te mostrar como eu pertenço ao mundo”

Danilo escreveu uma carta para o pai durante o processo. Nela, revisitou o medo que sentia quando ainda era adolescente e relembrou o momento em que revelou ser gay.

A experiência de maquiar o pai acabou funcionando também como um exercício pessoal de liberdade.

“Eu não quero te transformar em outra pessoa, porque eu aprendi a te amar e te entender assim como você é. Eu só quero, por um dia, poder te mostrar como eu pertenço no mundo”, escreveu.

A fotografia passou, assim, a funcionar como uma ponte entre dois universos que durante muito tempo pareciam distantes: o campo onde Danilo cresceu e o universo queer no qual encontrou pertencimento.

Da experiência familiar para o circuito artístico

“Dear Father” ultrapassou a dimensão de um projeto acadêmico. A série recebeu reconhecimento no circuito artístico internacional, incluindo participação no New Contemporaries 2024, além de premiações e seleções relacionadas à fotografia.

Em 2026, o trabalho também ganhou exposição no Brasil. A mostra “Querido Pai”, com curadoria de Renato Negrão, foi apresentada na Galeria O Jardim, em São Paulo, e contou com a presença de João na abertura, em 12 de setembro.

A obra também continua sendo apresentada em diferentes espaços e eventos ligados à fotografia e à arte contemporânea.

Uma história sobre identidade e pertencimento

Mais do que fotografar um agricultor vestido de drag queen, Danilo utiliza a própria família para discutir temas como masculinidade, homofobia, identidade LGBTQIA+, religiosidade e afeto.

O pai não é apresentado como alguém que abandonou sua identidade para entrar no universo do filho. Pelo contrário: João continua sendo agricultor, pai e homem do campo enquanto experimenta, por meio da performance drag, uma linguagem que durante muito tempo esteve distante de sua realidade.

O trabalho também transforma o olhar de Danilo sobre sua própria infância.

Depois de anos sentindo que precisava esconder partes de quem era quando retornava ao Brasil, o artista passou a ocupar novamente aquele espaço — dessa vez sem retirar os brincos, esconder o cabelo ou modificar sua maneira de existir.

E, ao lado dele, estava o próprio pai.

Para Danilo, essa reconexão resume o sentido do projeto: não transformar João em outra pessoa, mas permitir que pai e filho finalmente compartilhem o mesmo espaço sem que nenhum dos dois precise deixar de ser quem é.

“Se eu morrer e voltar, quero voltar viado de novo, porque eu amo ser assim, eu amo transformar isso que tantas vezes é olhado de forma negativa em um poder”, afirma o artista.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo