
A política é feita de movimentos, mas, acima de tudo, de memória. Nós não pode ser convocada a esquecer o passado no exato momento em que nosso voto passa a ter valor estratégico no cenário eleitoral.
Em outubro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) deu início a uma movimentação pública para se aproximar de eleitores LGBTQIA+. Durante um ato de campanha realizado em Fortaleza, no Ceará, o parlamentar afirmou que pessoas homossexuais e integrantes da comunidade seriam “sempre bem-vindos” e prometeu retribuir o carinho recebido. Em aparições recentes, o senador também buscou afastar receios de perseguição, negando a intenção de alterar direitos civis já consolidados, como a união estável.
No entanto, o jornalismo exige confrontar promessas de campanha com a trajetória do candidato. O mesmo Flávio Bolsonaro que hoje acena para a diversidade acumula em seu histórico declarações hostis. Em 2011, o então deputado estadual questionou publicamente a normalidade da homossexualidade e colocou em dúvida se um pai poderia sentir orgulho de ter um filho gay.
Diante desse contraste, surge a provocação central: trata-se de uma evolução sincera de postura ou de puro marketing político de ocasião?
O legado do governo Bolsonaro e a escalada da intolerância
A tentativa de Flávio Bolsonaro de construir uma imagem de acolhimento não pode ser desvinculada do legado do governo de seu pai, Jair Bolsonaro (2019–2022), uma gestão marcada por discursos institucionais contrários às pautas de diversidade.
Relatórios de organizações internacionais, como a Human Rights Watch, documentaram sistematicamente como a gestão federal anterior promoveu o enfraquecimento de políticas voltadas à população LGBTQIA+. Entre os episódios marcantes do período estiveram:
- Censura e Restrição Cultural: A suspensão do financiamento público para produções audiovisuais com temática LGBTQIA+.
- Ataques Institucionais: O combate ostensivo à chamada “ideologia de gênero” nas escolas e o não reconhecimento de arranjos familiares fora do padrão tradicional.
- Impacto na Intolerância: A normalização do discurso de Intolerância por altas autoridades do Estado.
Esse ambiente de hostilidade se refletiu diretamente nos dados de violência e judicialização. Levantamentos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontaram que os processos por crimes de discriminação e intolerância contra a população LGBTQIA+ cresceram de forma contínua, atingindo patamares alarmantes nos tribunais do país. Quando a autoridade pública valida o preconceito, a violência deixa de ser apenas discurso e se transforma em realidade concreta nas ruas.
O alerta global: O espelho americano e o retrocesso com Donald Trump
O cenário internacional reforça que direitos civis não são conquistas irreversíveis. O retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos oferece um exemplo prático de como a mudança de diretrizes governamentais pode desmantelar proteções históricas de minorias.
Em seus atos executivos, a administração Trump adotou medidas severas contra a população trans e não binária, incluindo:
- Redefinição Administrativa de Sexo: Restrição da definição legal de gênero a categorias biológicas estritas no âmbito federal.
- Desmonte de Políticas de Diversidade: Cancelamento de programas de inclusão e equidade em órgãos governamentais.
- Restrição de Direitos Trans: Barreiras na emissão de documentos oficiais e na participação em espaços públicos e institucionais.
A experiência norte-americana serve de alerta direto para o eleitorado brasileiro: a perda de direitos nem sempre ocorre pela revogação formal de leis no Congresso, mas muitas vezes por decretos administrativos, cortes de orçamento e desmonte de políticas públicas de acolhimento.
A justiça como guardiã: Conquistas que não vieram do Congresso
No Brasil, a consolidação dos direitos LGBTQIA+ possui uma característica marcante: quase a totalidade das garantias fundamentais foi conquistada no Poder Judiciário, diante da omissão histórica e da resistência do Congresso Nacional.
2011: STF reconhece a união estável homoafetiva por unanimidade
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2013: CNJ proíbe cartórios de recusarem a celebração de casamento civil
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2018: STF garante alteração de nome e gênero para pessoas trans sem cirurgia
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2019: STF equipara a homotransfobia ao crime de racismo
Nenhuma dessas etapas estruturantes partiu de uma lei abrangente aprovada pela maioria dos parlamentares. Elas foram fruto da provocação contínua da sociedade civil organizada, ativistas e juristas junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Porém, depender do Judiciário exige vigilância constante. Projetos de lei no Congresso frequentemente tentam sustar ou reverter essas decisões judiciais. Por isso, a escolha de representantes no Executivo e no Legislativo determina se as conquistas judiciais serão preservadas ou sofram constantes tentativas de anulação.
Cidadania no apoiador: O voto consciente como instrumento de proteção
O eleitorado LGBTQIA+ é diverso, plural e possui demandas que vão além da pauta identitária, abrangendo economia, saúde, segurança e educação. Não existe voto obrigatório por identidade. No entanto, o voto consciente exige confrontar o discurso de campanha com a prática política.
Exigir coerência de candidatos como Flávio Bolsonaro não significa recusar o diálogo, mas sim cobrar compromissos reais e verificáveis em vez de simples acenos de palanque. O acolhimento verdadeiro não se mede em declarações eleitorais, mas em votos no Congresso, apoio a orçamentos para políticas públicas de combate à violência e defesa intransigente dos direitos humanos de todas as pessoas.