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Gay e liberal: Stefanos Kasselakis vence primárias do partido de esquerda na Grécia

Em discurso para dezenas de simpatizantes, o vencedor abraçou seu marido e disse: "Tyler, você é a razão de eu estar aqui".

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Stefanos Kasselakis, novo líder do Syriza, comemora resultado da primária interna do partido na Grécia. (Foto: Reprodução/Instagram)
Stefanos Kasselakis, novo líder do Syriza, comemora resultado da primária interna do partido na Grécia. (Foto: Reprodução/Instagram)

As bases do Syriza decidiram mudar de passo e se distanciar da linha tradicional da esquerda na Grécia. É isso que pode ser lido do resultado do segundo turno das primárias que ocorreram no domingo. Stefanos Kasselakis, gay, liberal, ex-executivo da Goldman Sachs e com 35 anos, venceu a advogada e ex-militante da esquerda desde os tempos estudantis Efi Achtsioglou, de 38 anos, por larga margem. Com cerca de 70% dos votos apurados, ele tinha 56% do total, contra 44% de sua rival, e com este cenário o resultado foi proclamado.

Kaselaks não se encaixa na imagem nem na linguagem da esquerda tradicional grega. Ele tem 35 anos, está casado com outro homem — nos EUA, uma vez que a Grécia não permite casamento entre pessoas do mesmo sexo — e conta com uma carreira mais longa e bem sucedida nos negócios do que na política. Trabalhou no banco Goldman Sachs e foi conselheiro em uma transportadora. Nas únicas eleições em que se apresentou como candidato do Syriza, as de junho passado, não ocupava um cargo e destaque e não conseguiu uma vaga. Até então, era desconhecido da maior parte dos militantes do partido que o elegeu seu novo líder.

De moto, à meia-noite, o vencedor chegou à sede central do partido. Não podia estar mais sorridente. Ali o aguardavam dezenas de simpatizantes, especialmente jovens.

“Stefanos, mude tudo”, gritavam os apoiadores. A resposta foi imediata: “Vamos mudar juntos”.

Suas primeiras palavras foram para as vítimas da tempestade Daniel que ainda não recuperaram suas casas.

“Hoje ganhou a luz e a esperança no futuro, para que nossos jovens não tenham que seguir para o exterior”, disse.

Antes de concluir a intervenção, Kasselakis abraçou seu marido — a quem os meios gregos se referem como “companheiro”. Pouco antes, se dirigiu a ele em inglês. “Tyler, você é a razão de eu estar aqui”.

Stefanos Kasselakis e o marido Tyler McBeth. (Foto: Reprodução/Instagram)
Stefanos Kasselakis e o marido Tyler McBeth. (Foto: Reprodução/Instagram)

A rival de Kasselakis, Efi Achtsioglou, representava o continuísmo, que apostava na coerência com a estética e a ética daquele que chegou a ser, em 2015, o partido mais poderoso de toda a Europa no campo da esquerda e da social-democracia. A advogada, de 38 anos, conta com uma extensa carreira política. Começou a militar nas juventudes de formação e foi ministra do Trabalho no governo de Alexis Tsipras. Até o surgimento do fenômeno Kasselakis, todos os setores do partido apostavam que seria a líder pelos próximos anos.

Na campanha para as primárias, Kasselakis demonstrou uma enorme capacidade de comunicação. Sua equipe de colaboradores inundou as redes sociais com vídeos, e soube combinar os registros formais com pílulas nas quais o candidato mostrava aspects pessoais de sua vida. Dominar a arte de lançar uma mensagem não é um mérito menor em um país no qual tanto partidários como detratores destacam que a principal arma do atual primeiro-ministro é sua eficaz equipe de comunicação. Por isso, fontes internas do Syriza consideram que a virtude do vencedor é que ele pode ser o “Kyriakos Mitsotakis da esquerda”.

Guinada ao centro

Nos 538 colégios eleitorais do país, 188 mil filiados tinham o direito de votar, mas 133 mil o fizeram, 13 mil a menos do que no primeiro turno. Apesar de no domingo passado, quando quase 147 mil militantes votaram, os líderes do partido terem se esforçado para usar expressões como “data histórica” e “participação espetacular”, os números foram parecidos com os da última reeleição de Alexis Tsipras, em 2022. Seu mandato era de quatro anos, mas ele deixou o posto depois dos maus resultados nas eleições de maio e junho.

A aposta em Kasselakis tem uma leitura política evidente. É uma aposta em algo novo, depois das dolorosas derrotas. É, também, uma aposta para disputar o centro político com Mitsotakis. O atual primeiro-ministro tem adotado políticas que não são fáceis de situar no eixo esquerda-direita. Por um lado, sua política sobre a imigração é dura, e está próxima das ideias da extrema direita. Mas as políticas econômicas combinam elementos de liberalismo com a generalização de subsídios. Desta forma, o premier conseguiu o voto de setores que tradicionalmente não votam na direita.

O principal desafio agora para Kasselakis é o fato de não ser deputado. Como liderar a oposição de fora do plenário? Para que entrasse no Parlamento teria que contar com a saída de quatro deputados, e dois deles, Elena Akritas e Ozon Iliopulos, disseram que não estão dispostos a deixar seus assentos.

Outro grande desafio é controlar um partido que pouco conhece por dentro. Para isso ele conta, acima de tudo, com a experiência dos deputados Pavlos Polakis e Nikos Pappas, assim como de Tsipras, Yorgos e Alexis. Fontes do Syriza garantiram que o ex-premier comunicou a Kasselakis que está à sua disposição para ajudá-lo a construir a alternativa para vencer Mitsotakis.

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