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Munique elege primeiro prefeito gay da história em meio a avanço da homofobia na Alemanha

Dominik Krause, de 35 anos, encerrou 42 anos de hegemonia do SPD na capital da Baviera; sua sexualidade não foi tema de campanha.

Dominik Krause, do Partido Verde, é o primeiro prefeito assumidamente gay a ser eleito em Munique. (Foto: AP - Sven Hoppe)
Dominik Krause, do Partido Verde, é o primeiro prefeito assumidamente gay a ser eleito em Munique. (Foto: AP – Sven Hoppe)

A eleição municipal de Munique, realizada no domingo (22), ficará marcada por dois feitos históricos simultâneos: a terceira maior cidade da Alemanha elegeu ao mesmo tempo seu primeiro prefeito do Partido Verde e seu primeiro prefeito assumidamente gay. O escolhido foi Dominik Krause, de 35 anos, que encerrou uma hegemonia de quatro décadas do Partido Social Democrata (SPD) à frente da capital do estado mais rico do país.

Quem é Dominik Krause?

Nascido em 1990, Krause é formado em física pela Universidade Técnica de Munique e se assumiu gay aos 11 anos. É noivo do médico Sebastian Müller, com quem tem um relacionamento desde a adolescência — os dois se conheceram durante uma aula de dança.

Na noite da vitória, quando o resultado já estava definido, os dois se beijaram no palco da festa de comemoração, numa cena que estampou portais de notícias em toda a Alemanha.

Sua trajetória política começou como vereador em 2014. Em 2023, assumiu o cargo de vice-prefeito — e agora chega ao posto máximo da prefeitura.

Sexualidade fora da campanha

Dominik Krause, à direita, e seu noivo Sebastian Müller durante a festa eleitoral do Partido Verde após a vitória nas urnas, no domingo, 22 de março de 2026. (Foto: AP - Sven Hoppe)
Dominik Krause, à direita, e seu noivo Sebastian Müller durante a festa eleitoral do Partido Verde após a vitória nas urnas, no domingo, 22 de março de 2026. (Foto: AP – Sven Hoppe)

Um dos aspectos mais comentados pela imprensa alemã foi justamente o que não aconteceu: a vida privada de Krause não se tornou tema de debate eleitoral em nenhum momento. Sua orientação sexual, pública e conhecida, simplesmente não foi pauta.

O contraste com o passado é revelador. Em Berlim, em 2001, o então candidato Klaus Wowereit revelou sua homossexualidade dias antes da eleição, depois de saber que a informação seria publicada pela imprensa. Na ocasião, disse a frase que ficaria célebre: “Sou gay, e isso é uma coisa boa”. Já em Hamburgo, em 2003, Ole von Beust foi alvo de chantagem do próprio vice-prefeito, que ameaçava expor sua orientação sexual. O escândalo veio à tona, mas a população reagiu com apoio.

Vinte e poucos anos depois, em Munique, o assunto simplesmente não existiu como polêmica. Para o colunista do jornal Welt Rainer Haubrich, isso reflete uma transformação geracional e cultural significativa na sociedade alemã.

O que move a agenda do novo prefeito

Durante a campanha, Krause apostou em pautas urbanas e ambientais: ampliação de áreas verdes, expansão de ciclovias e investimento em moradia popular. A vitória também é lida como reflexo do desgaste do SPD, que governava Munique há décadas — o então prefeito Dieter Reiter estava no cargo há 12 anos.

Munique, vale lembrar, destoa da maior parte da Baviera: é uma cidade de inclinação liberal de centro-esquerda, o que ajuda a contextualizar a abertura do eleitorado ao perfil de Krause.

O paradoxo: avanços políticos, retrocessos nas ruas

A vitória histórica, no entanto, acontece num momento de aumento expressivo da violência homofóbica no país. Em 2025, foram registrados 2.048 crimes homofóbicos na Alemanha — o maior número da série histórica, numa tendência de crescimento ininterrupto desde 2017. Desde 2010, o número de ocorrências do tipo cresceu dez vezes em todo o país.

O cenário é grave o suficiente para que o secretário-geral do SPD, Kevin Kühnert, tenha afirmado em entrevista ao canal Welt que evita andar de mãos dadas com o parceiro em Berlim por medo da violência. Em 2024, a própria chefe da polícia da capital alemã chegou a recomendar que casais gays evitem demonstrações de afeto em certas regiões da cidade.

Em 2025, duas paradas do orgulho LGBTQIA+ foram canceladas por razões de segurança — nas cidades de Regensburg e Gelsenkirchen — após ameaças diretas.

No plano federal, o governo conservador do chanceler Friedrich Merz encerrou o programa “Vida Queer”, único plano nacional voltado à promoção de direitos da população LGBTQIA+.

Um símbolo em tempos difíceis

A eleição de Dominik Krause condensa, em uma só noite, os dois movimentos contraditórios que a Alemanha vive hoje: a normalização da diversidade nos espaços de poder e o recrudescimento da intolerância nas ruas. Sua vitória não resolve esse paradoxo — mas o coloca em evidência de forma inescapável.

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