Corpo, arte e subversão: Exposição “Prefiro Ser” celebra os 85 anos de Ney Matogrosso

Mostra no instituto cultural Solar, no Rio, usa artes visuais, esculturas e performances históricas como metáforas para a trajetória libertária de um dos maiores ícones da cultura brasileira.

Ney Matogrosso fotografado em 1974. (Foto: Acervo Instituto Moreira Salles/Coleção Madalena Schwartz)
Ney Matogrosso fotografado em 1974. (Foto: Acervo Instituto Moreira Salles/Coleção Madalena Schwartz)

O corpo como manifesto, a performance como desafio e a liberdade como norte. Ney Matogrosso, um dos nomes mais celebrados e disruptivos do cancioneiro nacional, completa 85 anos. Para marcar a data, o instituto cultural Solar, localizado no centro do Rio de Janeiro, inaugurou a exposição “Prefiro Ser”.

Longe de ser uma biografia literal, a mostra reúne vídeos, pinturas, fotografias e esculturas que funcionam como metáforas da personalidade camaleônica do artista. A curadoria é assinada por Bernardo Mosqueira, Matheus Morani e Pablo León de la Barra.

“Ney é um artista que bota o próprio corpo em risco, como se ele fosse um objeto de performance, encantamento e desafio”, destaca o curador Bernardo Mosqueira.

O Corpo Coberto de Suor e a Recusa a Rótulos

“Secos e Molhados”, de Miriam Inez da Silva. (Foto: Joao Liberato/ Divulgação)

Logo na entrada do Solar, o público é recepcionado por uma escultura de Exu, concebida por Chico Tabibuia. A obra apresenta a divindade com seios e uma protuberância fálica, sintetizando a recusa de Ney em ser rotulado entre o masculino e o feminino.

A emblemática presença de palco do cantor também ganha contornos físicos na mostra:

Ditadura Militar e a Estética da Marginalidade

“Suave Coisa Nenhuma”, 2026, de avaf. (Foto: Instagram/Reprodução)

Ney Matogrosso despontou nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad. Com rostos pintados e roupas insinuantes, o trio empilhou sucessos como “Sangue Latino” e “O Vira”, desafiando a moral da ditadura militar.

Essa postura disruptiva seguiu na carreira solo. O álbum Bandido (1976), representado na exposição por um cartaz, dialoga diretamente com a célebre bandeira-poema “Seja Herói, Seja Marginal”, criada por Hélio Oiticica em 1968.

De acordo com a curadoria, o magnetismo de Ney era tão poderoso que subvertia até os discursos repressores da época: “Os próprios conservadores ficavam encantados”, pontua Mosqueira.

Diálogos Históricos: O Corpo como Obra de Arte

A exposição “Prefiro Ser” traça paralelos entre a ousadia de Ney e outros momentos cruciais da história da arte brasileira que desafiaram normas sociais de gênero e comportamento:

ArtistaObra / PerformanceContexto Histórico
Antonio Manuel (1970)“O Corpo é a Obra”Inscreveu o próprio corpo nu no Salão de Arte Moderna em plena repressão política.
Flávio de Carvalho (1956)“New Look”Caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e blusa bufante, afrontando os padrões masculinos.

As próprias vestimentas de Ney — desde calças jeans justíssimas até quepes de couro e regatas metalizadas com estética sadomasoquista — são celebradas como ferramentas de questionamento de gênero e sexualidade.

Sem Temer a Vertigem: O Enfrentamento à Epidemia de HIV

‘De unhas negras e íris cor de mel’, de Thix. (Foto: Acervo Pessoal da artista)

A mostra também reserva um espaço de profunda sensibilidade para os anos 1980, período em que a comunidade LGBTQIA+ enfrentou o auge e o estigma da epidemia de HIV. O próprio Ney Matogrosso perdeu figuras centrais de sua vida para a doença, como o marido Marco de Maria e o ex-namorado, o cantor Cazuza.

Esse núcleo traz a força de artistas que traduziram as dores e temores da época:

O vídeo de França termina com a frase: “Above all, they had no fear of vertigo” (Acima de tudo, eles não temeram a vertigem). Uma definição que, para a curadoria, conecta perfeitamente a obra desses artistas à trajetória corajosa de Ney Matogrosso.

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