Estudo inédito confirma: Mulheres trans não possuem vantagem física nos esportes
Maior revisão sistemática já realizada sobre o tema analisou dados de 6.500 pessoas e derruba o mito da superioridade biológica nas competições esportivas.

A presença de mulheres trans nos esportes de alto rendimento é frequentemente alvo de controvérsias e debates acalorados. A principal justificativa para a resistência é o questionamento se traços físicos do sexo biológico masculino poderiam conferir vantagens injustas nas competições.
Agora, a maior revisão sistemática já feita sobre o assunto traz uma resposta definitiva: mulheres transgênero são igualmente aptas fisicamente e não apresentam vantagens inerentes em relação às mulheres cisgênero (que se identificam com o gênero designado ao nascer).
O que diz a ciência sobre corpos trans e cis?
Publicado no prestigiado British Journal of Sports Medicine, o estudo analisou 52 pesquisas que mediram fatores cruciais para o desempenho atlético, como composição corporal, massa muscular e força física.
O levantamento reuniu dados de quase 6.500 participantes (com idades entre 14 e 41 anos), incluindo cerca de 2.900 mulheres trans e 2.300 homens trans. Os resultados contrariam o senso comum:
- Força e Oxigênio: Não foram observadas diferenças significativas nos níveis de força ou na absorção máxima de oxigênio entre mulheres trans e cis.
- Composição Corporal: Os níveis de gordura corporal são comparáveis. Embora a massa magra (músculos e ossos) tenda a ser maior em mulheres trans, isso não se traduz em vantagem física observável.
- Comparação com Homens Cis: As evidências mostram que, comparadas a homens cisgênero, as mulheres trans são consideravelmente menos fortes, possuem mais massa gorda, menos massa magra e absorvem menos oxigênio.
No caso dos homens trans, a massa e a força geralmente se estabilizam em um nível intermediário entre mulheres cis e homens cis.
O impacto da terapia hormonal no desempenho
A pesquisa focou exclusivamente em indivíduos que passaram por terapia hormonal de adequação de gênero.
No processo de feminização, o uso de estradiol e bloqueadores de testosterona promove mudanças como o crescimento das mamas, redistribuição de gordura e o afinamento da pele, além de uma esperada diminuição da massa muscular. O estudo aponta que, após um período de 1 a 3 anos de terapia hormonal, os níveis de força das mulheres trans se igualam aos das mulheres cis.
Isso refuta a tese comum de que passar pela puberdade masculina garantiria uma vantagem fisiológica vitalícia. Apesar de procedimentos de readequação não serem obrigatórios para a transição (cerca de 20% das pessoas trans binárias não fazem terapia hormonal), os regulamentos esportivos de alto nível geralmente exigem a hormonização para nivelar o desempenho.
Cuidado ao avaliar o esporte de elite
A maioria dos estudos avaliou populações sedentárias, refletindo a realidade demográfica: pessoas trans representam uma parcela ínfima dos atletas (nos EUA, são menos de 0,002% dos esportistas universitários).
Bruno Gualano, professor da USP e coautor da análise, alerta para o cuidado ao extrapolar os achados diretamente para os esportes de elite. No entanto, ele ressalta ao portal Live Science: “Se houvesse grandes vantagens físicas intrínsecas, nós esperaríamos observá-las até em populações não-atléticas, o que não foi o caso.”
Gualano também lembra que o esporte não se resume à biologia: “O desempenho envolve condição física, técnica, tática, psicologia, experiência e contexto. (…) Envolve um talento inato, desempenho coletivo e contingências de uma partida. Isso é muito difícil de mensurar em estudos científicos.”
Como as autoridades esportivas estão tratando a questão trans?
Enquanto a ciência avança em prol da inclusão baseada em dados, o cenário político esportivo caminha para a restrição.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou um novo consenso sobre a elegibilidade de atletas transgênero, com uma política unificada prevista para a primeira metade deste ano. A tendência é que novas restrições sejam impostas a atletas trans que completaram a puberdade masculina antes da terapia hormonal.
A movimentação é impulsionada por um contexto político conservador:
- Ações nos EUA: Em fevereiro de 2025, a Casa Branca (sob a administração de Donald Trump) emitiu uma ordem executiva para banir estudantes trans de categorias esportivas femininas, o que levou os Comitês Olímpico e Paralímpico dos EUA a aplicarem proibições semelhantes.
- Mudanças no COI: Sob a presidência de Kirsty Coventry (assumida em junho de 2025), o COI passou a defender a “proteção da categoria feminina”.
- Testes Cromossômicos: Em um retrocesso de mais de 30 anos, Coventry anunciou o retorno dos testes cromossômicos para determinar o sexo de atletas, o que também afetará atletas intersexo.
Até que as novas regras entrem em vigor, prevalecem as orientações do COI de 2021, que se baseiam no princípio da “não presunção de vantagem” — o mesmo que permite a participação do esquiador sueco Elis Lundholm (homem trans que não passou por hormonização) na categoria feminina dos atuais Jogos Olímpicos de Inverno.





